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Mas afinal os medicamentos ansiolíticos reduzem, ou não, a ansiedade? Como funciona afinal a ansiedade? Para Perceber e Agir.

Mas afinal os medicamentos ansiolíticos reduzem, ou não, a ansiedade? Como funciona afinal a ansiedade? Para Perceber e Agir.
14:07:31 21-08-2015 Sentido de Si Passatempo

Descrição

Uma notícia apresentada no site da Psychology Today, - «O lado errado dos medicamentos para a ansiedade - que fora publicada primeiramente no site I Got a Mind to Tell You, de autoria do Professor Doutor Joseph LeDoux, despertou-nos o interesse e resolvemos trazer esta informação para si. Ser-lhe-á útil se quer conhecer melhor como funciona a sua mente quando «ansiosa» e para tomar conhecimento da perspetiva de um neurocientista especializado no estudo das emoções e da ansiedade.

O texto de seguida é uma síntese da notícia supracitada, traduzido para português e adaptado. O Professor Joseph é neurocientista, professor na New York University, Director do Emotional Brain Institut e autor do livro, recentemente lançado, «Anxious: Using the Brain to Understand and Treat Fear and Anxiety (Viking, 2015)» [Ansioso: usar o cérebro para compreender e tratar o medo e a ansiedade].

Nas palavras de LeDou, na década de 60, do século passado, as indústrias farmacêuticas fizeram esforços para desenvolver novos e melhores fármacos para a ansiedade, contudo não houve avanços e os tratamentos de hoje - as benzodiazepinas (valium e os seus desdobramentos, como o Xanax, etc.) e os antidepressivos - não mudam desde há décadas. Algumas empresas farmacêuticas deixaram mesmo de investir na procura de medicamentos para a psiquiatria, nomeadamente de ansiolíticos, por causa da falta de novas perspetivas.

No livro - «Anxious: Using the Brain to Understand and Treat Fear and Anxiety (Viking, 2015)- o autor apresenta algumas justificações para os factos acima apontados. A título de exemplo, são referidas questões quanto aos desenhos metodológicos dos trabalhos de investigação para testar os novos fármacos, o facto de se estudarem as reações do processo de medo em animais em situações desafiadoras e incertas, o que, na sua opinião, não é o mais indicado pois os fármacos que alteram as respostas comportamentais e fisiológicas dos animais face ao medo, são insuficientes para as pessoas que vivenciam a emoção «medo». Contudo, mais importante que as criticas apresentadas, a base da postura critica do autor face aos medicamentos ansiolíticos relaciona-se, sobretudo, com a sua diferente perspetiva do mecanismo neurobiológico responsável pela ansiedade, e é esta que nos parece útil dar-lhe a conhecer.

Joseph LeDou defende que a ideia de que as emoções são entidades controladas por circuitos cerebrais específicos, localizáveis - a filosofia de base das investigações científicas - não é a correta. Nomeadamente, isto aplica-se à amígdala à qual se atribui toda a responsabilidade da reação geral ao «medo». Com base nesta filosofia de atuação das emoções, perante uma ameaça, a amígdala é ativada – gerando em cascata a ativação de respostas fisiológicas como ativação do sistema nervoso simpático, a segregação de hormonas do stress e o aumento da atividade cerebral - o que leva a pessoa a responder com comportamentos de proteção [ou fuga]. Ora o autor oferece ao leitor do seu livro uma visão diferente, ele defende que a amígdala (e os seus circuitos) é, de facto, responsável pela deteção e resposta do organismo face a situações de perigo, e pelas respostas fisiológicas que ajudam a pessoa a lidar com a situação, porém, considera que a amígdala não é a responsável pela emoção «medo». Ele propõe que o «medo» é um produto da evolução de circuitos cognitivos mais recentes do neocórtex, que processam as ameaças de forma separada, mas em paralelo, com a amígdala e os outros circuitos subcorticais (evolutivamente) mais velhos. Desta forma, as ameaças ativam tanto respostas comportamentais e sentimentos conscientes, como não conscientes, face ao medo, e neste processo estão envolvidos diferentes circuitos cerebrais. Porque as reações conscientes e inconscientes, muitas vezes, ocorrem em conjunto, «enganamo-nos» a pensar que todas têm uma origem comum no cérebro. A amígdala é envolvida quando uma ameaça está presente, desencadeando respostas fisiológicas e comportamentais, mas também perante a incerteza (ansiedade de antecipação ou medo) há a ativação de regiões subcorticais e corticais (hipocampo) para controlo da situação. Além disso a consciência da ansiedade, tal como a consciência da emoção medo, resultam da ativação dos circuitos cognitivos do neocórtex que integram diversos eventos neuronais. Ao mesmo tempo a ansiedade também atua na capacidade do próprio vislumbrar o seu futuro na 1ª pessoa e antecipar possíveis consequências de «ameaça» para o seu próprio futuro. Compreendendo a explicação dada, facilmente se percebe que os fármacos que alteram as respostas comportamentais dos animais face à ameaça são insuficientes para fazer com que as pessoas se sintam menos ansiosas.

Mas afinal os medicamentos ansiolíticos reduzem, ou não, a ansiedade?

Sim, reduzem, pelo menos numa importante extensão. Porém, estes fármacos bioquimicamente criam também inibição comportamental, tanto em humanos como em animais, dado que ativam sistemas subcorticais e corticais (antigos). Nos humanos estes medicamentos afetam os sistemas cognitivos do córtex pré-frontal, que como se referiu, se propõem construírem experiências de medo e ansiedade. Falta averiguar é se estas drogas ao agirem sobre o córtex pré-frontal se inibem seletivamente os sentimentos de ansiedade, ou se, pelo contrário, produzem um embotamento da experiência afetiva em geral. A verdade é que as benzodiazepinas reduzem a perceção, a atenção, a capacidade de vigilância e os processos cognitivos que contribuem para a construção de qualquer vivência emocional, não só as emoções do medo ou de ansiedade. Como resultado, as benzodiazepinas podem, em alguma extensão, reduzir os sintomas de ansiedade nas pessoas, mas com o custo de «adormecimento» de outras possíveis emoções e da acuidade intelectual geral.

Se os medicamentos para a ansiedade reduzem sintomas chave desta síndrome, tais como, a hipervigilância, controlada pelo sistema cognitivo consciente, a ansiedade cognitiva (consciente, sem a presença real de perigo) não é então também reduzida?

Uma híper vigilância, ou híper alerta, perante possíveis ameaças, amplia a ansiedade. Assim, o medicamento que reduz a vigilância reduz, de facto, a intensidade da ansiedade, porém, não elimina, necessariamente, a emoção medo e as preocupações associados que existem na mente de uma pessoa ansiosa. Desta forma a investigação científica deve não só desenvolver tratamentos farmacológicos que atuam sobre circuitos neuronais responsáveis por processos cognitivos inconscientes, mas também conscientes. Tratamento que se mostra eficaz no controlo do comportamento ansioso é a terapia comportamental.

Em síntese, múltiplos sistemas neuronais contribuem para os sintomas da ansiedade e a emoção medo. Os sintomas que se manifestam em experiências (cognitivas) subjetivas, conscientes, dependem dos circuitos neuronais (recentes) do neocórtex. Por sua vez, os sintomas fisiológicos e comportamentais são mediados pelos sistemas neuronais (evolutivamente) mais primitivos do cérebro que processam as ameaças existentes (e presentes), bem como, antecipadas. São também os últimos que preparam e ditam as respostas cerebrais e comportamentais para lidarem com a situação de ameaça (luta ou fuga).  

O texto apresentado parece-nos efetivamente útil para uma melhor compreensão do mecanismo biológico da ansiedade, apresentando simultaneamente uma nova (e recente) perspetiva sobre a complexidade deste mecanismo.

Chamamos novamente a atenção que a perspetiva apresentada é do autor em causa.

Compreenda-se que a medicação ansiolítica atual é deveras útil, apesar de se procurar sempre melhores terapêuticas.

Simultaneamente reafirma-mos a relevância da terapia cognitiva/comportamental para trabalhar os sintomas comportamentais da pessoa ansiosa.

A imagem utilizada é do livro  Anxious (Viking, 2015) de Joseph LeDou (fig. 1.3 «Um mundo de ansiedade e medos)

 

Pela equipa da Sentido de Si,

Susana de Sá Fernandes

Psicóloga/neuropsicóloga

 

 

Entretanto siga-nos pois procuramos criar mais em prol da saúde mental nacional.

   

 

  


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